A Comarca da Sertã nº893 25-03-1953
A Comarca da Sertã
Representante em Lisboa:
João Antunes Gaspar L. de 5, Domingos 18 r/t – Tel. 25505
Director Editor e Proprietário:
Eduardo Barata da Silva Corrêa
Publica-se nos dias 5, IO. 15, 20, 25 e 30
Sertã, 25 de Março de 1953
Periódico regionalista, independente, defensor dos interesses da Comarca da Sertã: Concelhos de Sertã, Oleiros, Proença-a-Nova e Vila de Rei: (Visado pela Comissão de Censura)
Ano XVII Redacção é administração: Rua Serpa Pinto — Composição e Impressão: — GRÁFICA CELINDA, Lda. — SERTÃ Nº893
“Vindes agora lá de cima, de Guimarães, berço da nacionalidade, do Porto, donde como é fama teve nome eterno Portugal, é de Viseu, onde demorou aquele Pastor «cujo fama ninguém virá que dome». Hoje visitais esta maviosas e doces terra de Coimbra, «Ridentem Urbem», como lhe chamou um seu filho ilustre, onde tudo fala ao nosso espírito com tão forte poder de evocação que – dir-se ia – o próprio eflúvio da paisagem fez destas ribeiras do Mondego ponto de eleição para os grandes cometimentos do porvir, e não só lugar de eleição para cantos elegíacos e saudosos.
A primeira romagem que fazeis é ao velho e glorioso mosteiro de Santa Cruz, e quem quer que estabeleu o vosso itinerário coimbrão andou avisadamente, porque á sombra destes muros veneráveis-infelizmente tão desfigurados nos dias de hoje- acendeu-se há muitos séculos uma grande fogueira de cultura e de patriotismo. Na capela-mór dormem o sono derradeiros os dois primeiros reis de Portugal, e não por acaso jazem aqui lado a lado, em seus majestosos mausoléus, que a arte manuelina enriqueceu de primores de estilo e composição arquitectónica e decorativa.
O nosso austero e sábio Herculano, ao traçar os primórdios da nacionalidade, lembrou a todos os portugueses a figura de Aquele em cujo escola aprenderam os barões afonsinos o duro mister da guerra e alcançaram legar aos vindouros as gloriosas tradições de esforço e de amor pátrio. E disse mais, que a religião da pátria «nos ensina que, ao passarmos pelo pálido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas daquele homem, sem o qual não existiria hoje a nação portuguesa, a porventura, nem sequer o nome de Portugal».
Aqui tendes, meus amigos, matéria para algumas reflexões, e desde logo para recordamos que um povo é, antes de mais, o resultado de um conjunto de laços morais, tecidos solidária e estreitamente ao longo das gerações sobre uma parcela de terra. Assim o compreenderam os nossos antigos, e em seu tempo aquele grande homem que foi Afonso Henriques ao estabelecer o vínculo forte da sua sucessão no filho que ali repousa junto dele, ligados ambos para todo o sempre no mistério profundo da morte como o haviam sido no temor e na esperança da vida. Em nossos dias não somos mais do que um laço dessa cadeia de gerações, e bem o deveis sentir neste vosso peregrinar através de Portugal vendo com os olhos o que tínheis já representado no entendimento e na sensibilidade. Por força de alma e de vida os portugueses somos do Ocidente, como disse Camões, e nesta consonância de
(Conclusão na 4.ª pág.)
O IX Congresso Beirãoe a Exposição Regional das Beiras
Vão realizar-se na linda cidade de Viriato, de 15 a 20 de Setembro próximo e de 13 de Setembro a 5 de Outubro, respectivamente, o IX Congresso Beirão e a Exposição Regional das Beiras, sob o alto patrocínio da Casa das Beiras, das Juntas de Província da Beira Alta, da Beira Baixa e da Beira Litoral e dos Governadores Civis de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda e Viseu.
Os trabalhos de organização, já em curso, vão agora intensificar-se, entrando as respectivas Comissões num período de grande actividade.
Congresso Beirão
Comissões e Sub-Comissões
Secretário Geral — Dr. Armando dos Santos Pereira, Professor do Liceu de Viseu.
Comissão Organizadora local — Presidentes da Câmara Municipal de Viseu e da Junta de Província da Beira Alta, respectivamente eng. Tristão Ferreira de Almeida e dr. Alexandre de Lucena e Vale; drs. João Cabral Beirão, António Aires de Matos e José Malheiro do Vale, Cristóvão Moreira de Figueiredo, delegado da «Casa das Beiras»; dr. Henrique Paz, Secretário do Governo Civil.
(Conclui na 3.ª pág.)
Rumo… ao deus dará…
ou duas manhãs
pelo Dr. Hereno Nunes
Estou captando estas impressões na mais alta das «Varandas do Zêzere». Se dela vejo uma manhã a nascer nos horizontes que começam a ser estradas de sangue, dela também veio outra manhã a nascer no inferno e transformar-se numa promessa generosa… As grandes noites fechadas, mesmo as da história, quando vezes sucedem manhãs de grandes claridades…
…E que lindo é sempre o amanhecer no que tem de poesia, no que tem de promessa e no que tem de reivindicação…
…Passam já cinco minutos. O sol está completamente vestido; é mais do que uma promessa porque é já sangue vivo e criador; é mais do que uma esperança porque é a certeza transformada em luz; é mais do que uma reivindicação apetecida porque é já a vida a viver fartamente e dignamente.
Nasceu num berço feito de nuvens tão caprichoso arrumo que me dava a ideia de uma nau antiga a que não faltavam nem os mastros nem sequer as velas latinas.
No meio parecia ter umas pequenos manchas escuras. Talvez as velas da nau a tapar-lhe parte da face vermelha… e talvez olheiras por
(Conclui na 4.ª pág.)
Foge a Mocidade e não volta mais
Por maior que seja a dor
E mais cruel o tormento,
Todas as mágoas se apagam
Caindo no esquecimento.
Haja lágrimas, lamentos,
Ais e gemidos sem par,
Que a marcha certa do tempo
As virá cicatrizar.
Só não cura esta pena,
Que me traz a alma envolta:
— Ver fugir a Mocidade,
Sabendo que não mais volta…
Covilhã
Fernando Silva
A defesa dos pinhais da região:
A Câmara Municipal deste concelho foi pedida, pelo engenheiro silvicultor director-geral, a informação sobre se na região há facilidades em conseguir pinhal ou pinhais onde possa ser feito a prática que de futuro habilitará a lavoura a defender-se dos maus resineiros.
Resolveu-se dar conhecimento ao Grémio de Sertã e Vila de Rei, com sede na Sertã, para num estudo acertado e breve, se poder elucidar aquele entidade, enviando-lhe os ofícios que tratam do assunto.
Carta do Brasil
Londrina, 8 de Março de 1953
Sr. Eduardo Barata — Sertã: Um abraço para o amigo, desejando que se encontre bem. Eu felizmente bem e satisfeito me encontro neste país tão falado em Portugal.
Serve esta para lhe apresentar e a toda a família os meus sentimentos dos pêsames pelo falecimento do sr. António Barata e Silva, uma das pessoas que eu considerava pela maneira como sempre me tratou durante a minha permanência nessa e o admirava quanto à sua inteligência e boa vontade, que algumas vezes apreciei de querer honrar e engrandecer a Sertã. Não vou mais além, mas notei sempre o grande interesse que ele, grande sertanense pelo coração, dispensava a uma das colectividades mais importantes da Sertã — a dos Bombeiros Voluntários…
Foi, sim, um homem de bem que a Sertã perdeu; Deus lhe conceda o eterno descanso que merece.
Lamento de o não ter feito há mais tempo, mas foi pelo seu jornal que tive conhecimento da triste ocorrência e ele demora meses a chegar aqui; decerto me desculpará. É sempre com muito interesse que recebo a «Comarca», lendo com alegria as notícias do concelho a que pertenço e tanto mais por me considerar sertanense. Creia, sim, em mim um sertanense aqui no Brasil.
(Conclui na 4.ª pág.)
A Comarca da Sertã
Vida religiosa
No próximo domingo realizam-se, na nossa igreja matriz, com a solenidade habitual, as cerimónias dos Ramos, havendo missa, sermão e procissão à volta do templo.
E também o dia da Comunhão Pascal dos diversos organismos católicos locais, a que se associarão, como habitualmente, muitas outras centenas de pessoas.
Consta que na 2.ª, 3.ª e 4.ª feira da próxima semana haverá conferências, no mesmo templo, pelo Rev. Dr. Manuel Antunes, nosso patrício, ilustre professor de Filosofia no Seminário de Braga, o qual, como dissemos, virá à Sertã pregar o Sermão da Paixão na 6.ª feira Santa, após o impressionante procissão do Enterro do Senhor.
Conta-se, como certa, a instalação de alto-falantes na igreja matriz por ocasião das cerimónias da Semana Santa por iniciativa da Confraria do S. S.
Epizootia da febre aftosa
Por virtude da comunicação do sr. Intendente de Pecuária do distrito à Câmara Municipal deste concelho, de ter voltado a aparecer a epizootia da febre aftosa, com tendência a alastrar, foram publicados editais para que sejam cumpridos com rigor as determinações constantes do edital do Governo Civil de 16 de Dezembro de 1952, dando-se ainda conhecimento ao público de que toda a conveniência exercer a maior vigilância nos expositores de gado de unha rachada, que concorrem aos mercados mensais, semanais ou feiras, exigindo sempre a guia de trânsito para mais facilmente verificar que se encontram em regulares condições de transacção e evitar, assim, a propagação do mal que pode trazer graves consequências ao concelho.
Os editais chamam a atenção para estas instruções, do sr. veterinário municipal e autoridades policiais.
Plantação da vinha
De acordo com as disposições legais em vigor sobre a matéria, termina em 15 de Abril o prazo para a entrega dos requerimentos de autorização de plantação de vinha, a redigir nos termos habituais, já do conhecimento dos viticultores, e feitos em papel selado, acompanhado de uma cópia em papel comum.
Mercado coberto da Sertã
Na reunião da Câmara Municipal de 17 do corrente, foi apresentada uma carta do arquitecto sr. António Nunes, autor do projecto do plano de urbanização que informa vir a este Vila, nos meados de Fevereiro, a fim de ser escolhido, de acordo com a Câmara, o novo terreno destinado à construção do mercado coberto e ao mesmo tempo dá conhecimento de que o novo estudo do anteplano de urbanização se encontra praticamente concluído em conformidade com as sugestões contidas no parecer do Conselho Superior de Obras Públicas e aspirações da Câmara.
Resolveu-se oficiar ao sr. Arquitecto, pedindo a sua vinda a esta Vila o mais rápido possível a fim de se pôr em prática o que tiver por conveniente e a bem dos interesses do Município.
Beneficência: Para as três pobrezinhas do Chão da Forca, recebemos, do nosso estimado assinante sr. A. Silva Pracana, com importante estabelecimento de fanqueiro e lãs na cidade de Ponta Delgada (Açores), o valioso donativo de 100$00 (cem escudos), que muito agradecemos em nome das contempladas.
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Através da Comarca
VILA DE REI, 15
Esteve aqui no passado dia 13 o Ex.mo Director Escolar de Castelo Branco que, numa reunião com todos os agentes de ensino do concelho, tratou da campanha nacional contra o analfabetismo.
Encontrava-se no Canadá, o nosso estimado conterrâneo, sr. engenheiro Luís Bernardo Rolo, que por conta da Companhia Portuguesa de Celulose, ali está a especializar-se.
Que ao nosso patricio tudo se lhe depare á medida dos seus desejos são os nossos votos.
Com as instalações hospitalares aumentou o consumo de água nesta Vila, sendo deficiente a produzida pela mina abastecedora; assim vai a Câmara tentar com uma nova mina adquirir água suficiente para consumo da população, presumindo-se a captação de nascente chamada a Bica da Milriça.
Também estão em curso os projectos para abastecimento de água a algumas povoações do concelho.
Continuam os trabalhos de regularização e alargamento da estrada que serve a freguesia de Fundada.
Por estas e outras obras, demonstra-se que o concelho de Vila de Rei, não é só Vila de Rei, como se disse.
Pela autoridade administrativa vão ser dadas ordens para as diferentes povoações onde existem tabernas, afim de ser restringida a estadia de pedintes, que assolam este concelho.
Continua o frio e os agricultores andam desanimados com a estiagem prenúncio dum mau ano agrícola.
Fazem-se as sementeiras da época confiando-se no «Deus Supre Omnia».
Encontram-se pouco melhor dos seus padecimentos o sr. Vicente Rodrigues Baptista dos Santos.
Faleceu no Peso a sr.ª D. Maria José Pires Aparício, esposa do sr. José Aparício, a quem apresentamos as nossas condolências.
Recebeu tratamento no hospital desta vila, Tobias Rodrigues, residente na povoação da Zaboeira, ferido com um tiro de arma Flaubert.-C.
FUNDADA
Melhoramentos
Graças à camioneta do sr. Presidente da Câmara, carros e alguns «voluntários» desta freguesias, foi há dias lançado, nos pontos mais barrentos do caminho-estrada que liga a Vila de Rei, cascalho da pedra a fim de evitar a «patinagem» dos carros motorizados, e em ordem a facilitar a passagem mais certa e segura da camioneta de Passageiros – Carreiras p´ra Fundada.
Mas quando será? Se é certo que o caminho não é dos melhores, também e bem certo que, já por duas vezes um magnífico «auto-carro» da Empresa Eva que, se faz carreira de Lisboa a Faro, aqui veio
A Empresa «Charas» por várias vezes aqui tem vindo», em serviço de aluger.
Pedidos justiça
Para uma freguesia rural, que há tanto tempo paga mais que suficiente para ter o que ainda lhe falta de primeira necessidade, e ouvir mais esta «boa verdade», terem que sair tantos dos seus habitantes às 5h da manhã para chegar à Vila de Rei às 7 h., regressar pelas 20,30 para chegar a sua casa «pelas 23 ou 0 horas», e agora com a «piratagem» a agravar a situação, cremos não ser castigo que continue a aplicar-se à Fundada.
E ainda, há a quem parece mal pedirmos justiça…
Faça-se sem demora, a bem da Fundada e que será também a bem da Nação
(D`«O Distrito de Portalegre)
SOBR. FORMOSA, 18
Com o fim de comemorar as «Bodas de Ouro» matrimoniais do sr. José Delgado Júnior e de sua esposa sr.ª D. Maria Laia Franco celebrou-se hoje missa de acção de graças na capela de N. S. do Rosário de Fátima nesta Vila.
À assistência foi numerosa encontrando-se o templo repleto de pessoas amigas do casal que no final recebeu felicitações de todos os presentes.
Foi celebrante o Rev. P. Manuel Lourenço Fernandes Carrega que aos homenageados dirigiu saudações pedindo para eles as melhores bênçãos de Deus para que assim, por muitos anos ainda, possam gozar as felicidades terrenas.
Esta cerimónia foi promovida por iniciativa de seus filho e nora, sr. Asdrúbal Delgado Laia Franco e de sua ex.ma esposa Pepita Delgado Campanero, ausentes no Rio de Janeiro (Brasil), assistindo seus filho, nora e neto, respectivamente sr. Abílio Deldago Laia Franco, sr.ª Justa Ribeiro Franco e José Delgado Franco residentes em Castelo Branco.
No final ofereceram em sua casa um abundante copo de água aos convidados mais íntimos.
Aviso ao Comércio
Francisco da Silva, residente no lugar do Chão da Forca, freguesia e concelho da Sertã, declara, por este meio e para todos os efeitos legais, que não se responsabiliza por quaisquer dívidas contraídas por seu filho Alberto Martins da Silva.
Malhas
À mão confeccionam-se. Aqui se diz.
Para a freguesia do Sobral vai adquirir-se um Oratório da Sagrada Família, havendo já 30 pessoas inscritas para esse efeito.
A sede da freguesia tem absoluta necessidade de um telefone, o que constituirá um melhoramento importante pela sua alta utilidade; o presidente da Junta tem empregado todos os esforços para a sua aquisição.
O comércio da localidade não pode prescindir desse já hoje vulgar meio de comunicação e transmissão, reconhecendo-se, ainda, ser ele indispensável no caso de socorros médicos ou espirituais urgentes, visto que a povoação não dispõe nem de médico nem de pároco privativos.
«A Comarca da Sertã» apoia essa justíssima pretensão e ficaria agradecida se ela pudesse ser satisfeita com a máxima urgência.
CINE-TEATRO TASSO
No próximo domingo O Rei dos Reis, maravilhosa reconstituição da Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Duas sessões: às 15,30 e 21 horas.
Nascimento: No sábado passado teve o seu feliz sucesso, dando à luz um robusto rapazinho, a sr.ª D. Judite Vidigal Marinha dos Reis e Moura, esposa do sr. dr. Flávio dos Reis e Moura, dos Reis, advogado e notário na Sertã.
Mãe e filho estão de saúde.
Para o prosseguimento da construção da Estr. Nacional n.º 244,
que, saindo do Marmeleiro, passa pelas povoações de Peso, Cardigos e Amêndoa e vai ligar à E. N. n.º 3, dirigiu-se à Câmara Municipal deste concelho à sua congénere de Mação, pedindo-lhe para que informe se estará disposta a colaborar na petição que, em tal sentido, vai dirigir à respectiva entidade.
Dr. Abel Carreira: Fixou residência em Lisboa este nosso prezado amigo e distinto médico oftalmologista, que durante alguns anos residiu no Funchal. Os nossos cumprimentos.
Da Madeirã informam ter ali estado de visita o sr. dr. Francisco Dias Garcia, distinto advogado em Lisboa, acompanhado de sua mãe e tia.
DOENTES
— Esteve doente, mas graças a Deus, encontra-se em via de completo restabelecimento, a sr.ª D. Angelina da Natividade Lérias, digna professora oficial, esposa do sr. Manuel de Jesus Martins Canas.
— Tem passado incomodado de saúde o sr. dr. José Carlos Ehrhardt. Muito desejamos as melhoras de ambos.
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A Comarca da Sertã
Vila de Rei
e a sua Igreja Paroquial
A freguesia de Vila de Rei é, sem dúvida, uma das mais antigas freguesias de Portugal, podendo até justamente gloriar-se de ter sido objecto de particulares cuidados e alvo de especiais carinhos de El Rei D. Dinis e da Rainha Santa Isabel.
Julgamos muito provável que, até ao tempo do Monarca Lavrador, o Santuário principal da freguesia foi a Capela de S. Sebastião — hoje igreja da Misericórdia — e que, estando esta a tornar-se insuficiente para as necessidades da freguesia, se construiu, com o auxílio da Rainha Santa, no local onde hoje se encontra, a primitiva Igreja Matriz da freguesia de Vila de Rei.
Como é natural, esta Igreja sofreu, através dos séculos, numerosas reparações e também, evidentemente, algumas modificações. A mais notável, e para pior, deve ter sido a que resultou da passagem dos franceses em Novembro de 1807. Profanada e incendiada pela horda napoleónica, teve de ser reparada muito à pressa, porque a Igreja da Misericórdia, provisoriamente, teve de servir de Igreja Paroquial, era mais que insuficiente para a população da freguesia. Daí a sua pobreza desde aquela conturbada hora da nossa vida.
Há umas dezenas de anos, foi carinhosamente reparada, ficando ainda com certa beleza, apesar da sua humildade.
Hoje está uma ruína, e as crescentes necessidades da extensa freguesia estão reclamando não simplesmente uma boa reparação, mas a sua reconstrução desde os fundamentos. E´ actualmente a maior necessidade da freguesia e até do Concelho — não esquecendo que, até ao século XVII, coincidiam inteiramente o termo da freguesia e os limites do Concelho de Vila de Rei.
Vem-se pensando, desde há anos, nesse trabalho inadiável; e pena é que, como tanto desejámos e preconizámos, a construção da nova Igreja se não tenha podido começar e continuar a tempo de poder inaugurar-se no próximo Centenário da Definição da Imaculado, o novo Santuário de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira bem amada da freguesia de Vila de Rei.
Tem sido objecto de diseussão a escolha do local da nova igreja Matriz. De harmonia com o direito que também nos assiste, marcámos já, neste debate, a posição que nos parece inteiramente razoável.
Por certos rumores que nos chegaram, parece que se pende, nesta hora… julgada decisiva…, para um local diferente do mais indicado e sobejamente comprovado por motivos de sua natureza absolutamente objectivos
Dado o rumo que as coisas vão tomando, não temos grande esperança de ver, um dia, realizada a nossa boa aspiração. Mas nem por isso deixaremos de continuar a defender a posição que fortes e altas razões nos levaram a preferir.
Com as nossas considerações não conseguiremos, decerto, agradar a toda a gente, e pena teremos se alguém formos mesmo desagradável. Que ao menos nos conforte a ideia de que ninguém poderá descobrir, por detrás da nossa atitude, conveniências de ordem pessoal, esperando também que a não atribuam ao impulso de qualquer capricho, sempre possível em filhos de Adão, mas deveras irreal no caso presente da escolha do local da nova Igreja de Vila de Rei. Com esta esperança e convicção, voltaremos ao assunto.
- M. F.
(De «O Distrito de Portalegre»)
O IX Congresso Beirão
e a Exposição Regional das Beiras
(Conclusão da 1.ª página)
Comissão da Exposição — Presidente da Comissão Municipal de Turismo, dr. António de Figueiredo Costa Faro; João de Figueiredo Cabral Mascarenhas, Delegado dos Grémios da Lavoura da VI Região Agrícola e Procurador à Câmara Corporativa; Eng.º Monteiro do Amaral, Correia de Loureiro e Messias Fuschini, respectivamente Director da Estação Agrária de Viseu, Vice-Presidente da Federação dos Vinicultores do Dão e dos Serviços Agrários.
Comissão de Festas — Tenente Afonso Henriques Baptista Campos, Vereador Municipal; Mário de Almeida, do Grémio do Comércio; Prof. Reinaldo Correia de Almeida; Presidente dos Bombeiros Voluntários, do Orfeão de Viseu e dos Clubes Desportivos.
Sub-Comissão Desportiva — Dr. António Esteves Correia, Médico e Presidente da Associação de Futebol de Viseu; Serafim Lopes de Matos e António Lopes Ferreira Júnior.
Sub-Comissão da «Marcha das Aldeias» — Manuel de Almeida Campos, musicólogo; Carmindo Nogueira; Prof. Reinaldo Correia de Almeida; representantes dos jornais.
Sub-Comissão do Cortejo do Congresso Beirão — Cristóvão Moreira de Figueiredo, Delegado da Casa das Beiras; Horácio de Vasconcelos; Manuel de Almeida Campos; representantes dos organismos corporativos.
Sub-Comissão de Iluminação e Ornamentação — Raúl Fonseca Albuquerque e Castro; Mário Martins; Luciano Dias de Sousa; António Almeida Vasconcelos Cabral.
Comissão de Fundos — Celestino Coelho Pereira, Presidente; Mário Martins, Secretário; Tenente Afonso Campos, Tesoureiro.
Comunicado
1.º — O IX Congresso Beirão realizar-se-á de 15 a 20 de Setembro próximo, por ocasião da Feira Franca de S. Mateus, na cidade de Viseu.
O respectivo Regulamento foi aprovado pelo Concelho Regional da «Casa das Beiras» e será enviado oportunamente.
2.º — O Secretário Geral e os Presidentes das Comissões iniciam dentro em breve visitas às sedes dos Distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra e Guarda, onde se realizarão conferências com os respectivos Governadores Civis e Presidentes das Juntas de Província da Beira Baixa e Beira Litoral e das Câmaras Municipais.
3.º — No campo desportivo, está em estudo um programa automobilístico, das Beiras, um torneio de Tiro aos Pratos e provas de atletismo e ciclismo.
4.º — A «Marcha das Aldeias», com tradição local, é uma iniciativa dos representantes dos jornais e deverá constituir um desfile garridamente artístico e uma bela demonstração folclórica.
5.º — O Cortejo do Congresso Beirão, que se procura interessar o todas as Beiras, de maneira a ser uma grande parada etnográfica da velha região beirã.
6.º — Na Exposição figurarão, além de produtos agrícolas, artigos industriais ligados à terra, artefactos e outros produtos das indústrias caseiras tradicionais.
7.º — O Programa festivo, em estudo, compreenderá números do melhor efeito.
Regulamento da Exposição Regional das Beiras
Artigo 1.º — A Exposição Regional das Beiras, a realizar em Viseu, por ocasião do IX Congresso Beirão, de 13 de Setembro a 5 de Outubro de 1953, constituirá uma manifestação de actividades das terras das Beiras, nas indústrias, na agricultura, na arte e em outras manifestação de progresso.
Artigo 2.º — A parte agrícola abrangerá todos os produtos da terra; a parte industrial todos os produtos industriais; e a parte artística as obras de arte retrospectiva, popular, plástica e industrial.
Artigo 3.º — Todos os referidos produtos deverão ser expostos em pavilhões e distribuídos por Secções de produtos, com indicação da origem.
Os produtos a expor são os seguintes:
- Secção Agrícola – Grupos:
I – Frutículas, II – Hortículas, III – Vitícolas, IV – Cerealífera, V – Florestal, VI – Apícola.
- Industria de Conversão de Produtos Agrícolas – Grupos: I – Lacticínios, II – Conservas, II – Vinhos e derivados, IV – Moagem e massas alimentícias, V – Lanifícios, VI – Olivícola, VII – Preparação de carnes, VIII – Cortumes, IX – Sericicultura, X – Florestais.
- Indústria Produtos de Material Agrícola – Grupos: I – Material viti-vinícola, II – Material agrícola em geral.
- Caça e Pesca: I – Meios e arte de pescar, II – Produtos em conserva, III – Produtos subsidiários.
- Artefactos e Indústria Caseira: I – Indústria mecânicas, II – Indústria manuais, III – Trabalhos caseiros, a) – bordados, b) – rendas, c) – verga, d) – tecelagem manual.
- Indústria Minerais e Aguas Minerais
- Indústrias Diversas: 1.º – A Sub-Comissão Executiva da Exposição providenciará no sentido de não faltem instalações aos produtos admitidos de todos os expositores de produtos industriais pagarão uma taxa de harmonia com a área ocupada.
Artigo 4.º – À Exposição das Beiras poderão concorrer produtores, industrias e artistas beirões, aos quais, independentemente do que vai estabelecido no artigo 3.º, é permitida a construção de stands próprios em local que a sub-comissão designará, depois de ter submetido à sua aprovação o plano da obra.
Único – Será organizada uma exposição bibliográfica em local próprio, e ás secções de monografias locais, fotografia e pintura, composições literárias ou musicais sobre assuntos ou temas regionais poderão concorrer autores ou artistas de outras regiões, desde que as suas obras traduzam usos e costumes de terras da Beira e representem ou traduzam as paisagens ou os seus monumentos.
Artigo 5.º – Aos produtores industrias, fabricantes, vendedores de máquinas ou seus representantes de qualquer proveniência é igualmente permitido exporem os seus produtos em local especial que para esse fim lhes será destinado.
Artigo 6.º – Todas as pessoas a quem é distribuído o presente regulamento e boletim de inscrição deverão devolver este, devidamente preenchido com os produtos que lhes seja possível expor, à sub-comissão executiva da Exposição das Beiras – Comissão Municipal de Turismo – Viseu, até ao dia 1 de Julho, na certeza de que, como vai estabelecido no artigo 3.º, será garantido alojamento para todos os produtores admitidos.
Artigo 7.º – As despesas de fretes e transportes de todos os artigoa, exceptuados os objectos de arte não comerciáveis, são de conta das Comossões Distritais ou Concelhias ou dos expositores, beneficiando todos das reduções que venham a conseguir-se das Companhias dos Caminhos de Ferro.
Artigo 8.º -Enquanto durar a Exposição, nenhum expositor poderá retirar qualquer dos produtos expostos, salvo os que estejam deteriorados, que poderão ser substituídos por outros.
Artigo 9.º – Todos os produtos, exceptos os das partes artitisca, deverão ser retirados dentro do prazo de cinco dias, finda a Exposição.
Artigo 10.º – Dos produtos a expor deverão ser apresentadas quantidades suficientes para boa apreciação.
Artigo 11.º – Tanto as Comissões Distritais e Concelhias como os expositores que construam stands próprios deverão ter concluídas as suas instalações, pelo menos, dez dias antes do designado para a abertura da Exposição.
Artigo 12.º A sub-comissão reserva-se o direito de organizar festas no recinto destinado à Exposição.
Artigo 13.º – Haverá Júris de Classificação, tantos quantos forem julgados necessários e escolhidos dentre técnicos e pessoas competentes.
Artigo 14.º – Os prémios a distribuir consistirão em diplomas de medalhas de ouro, prata e cobre, e menções honrosas.
Artigo 15.º – Os Júris poderão deixar de propor diplomas ou menções honrosas em qualquer grupo, quando não encontrem ai produtos dignos de tal distribuição.
Artigo 16.º – Cada Júri terá um Secretário, que lavrará a respectiva acta da distribuição dos prémios, a qual será assinada por todos.
Artigo 17.º – Da decisão do Júri não há recurso.
Artigo 18.º – Tosos os casos omissos serão resolvidos pela sub-comissão Executiva da Exposição.
« A Comarca da Sertã», compenetrada da sua missão regionalista, pões as suas colunas à disposição do ilustre Secretario Geral do Congresso e das Comissões e Sub-Comissões para a propaganda e noticiário da obra de tão grande envergadura e projecção patriótica e regional como virão a ser o Congresso e a Exposição
A cerimónia dos Passos
Nesta Vila, decorreu com grande brilhantismo e a procissão atingindo raro luzimento. Os sermões do Pretório e do Encontro foram pregados pelo Rev. P.e Monteiro, pároco da freguesia de Álvaro, e do Calvário pelo Rev. P.e João Nunes Prata, pároco da Amieira, tendo ambos os oradores sido ouvidos com geral agrado pela numerosíssima multidão de fiéis. Registe-se, também, que a marcha fúnebre, foi executada pela nossa Filarmónica, da regência do sr. Luís Pereira Valente, com impecável mestria, notando-se a apresentação de sete novos executantes. Na procissão entrou o novo guião, recentemente adquirido pela Confraria da Santa Casa da Misericórdia.
A Comarca da Sertã
A lotaria através dos tempos
Pelo Prof. José Manuel Landeiro
A lotaria na Europa conta já mais de 400 anos. Os vendedores ambulantes de bilhetes ou fracções (meio, um quarto, um vigésimo do bilhete e cautela) são hoje conhecidos em todo o país por cauteleiros por venderem cautelas, a fracção igual a um centésimo do bilhete. Este jogo, cuja venda é oficialmente aprovada, se tem favorecido muita gente, tem também atirado com muitos para a miséria.
São assim todos os jogos…
A lotaria existia já, na Bélgica, em 1519 para fins de beneficência. Da Bélgica passou à Itália, em 1641, atribuindo-se o seu nascimento na cidade de Veneza. Em 1763 já existia também na Espanha. Portugal adoptou-a quase que ao mesmo tempo que estes países pois segundo se refere a «Gazeta de Lisboa» (1), de 10 de Outubro de 1720, existia já uma lotaria criada a pedido do Provedor e Irmãos da Mesa da Santa Casa dos Enjeitados. Era de 200 mil cruzados, no montante de «53.334 bilhetes de um quarto de ouro cada um». Mas, só por Decreto de 18 de Novembro de 1783 foi criada oficialmente uma lotaria anual a pedido da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, Hospitais Reais e Expostos de Lisboa, «para ocorrer com os seus lucros às necessidades urgentes».
Atribui-se ao Duque de Lafões a interferência na concessão desta lotaria, mas o decreto não cita o seu nome. Assim se criou, e só para fins de beneficência, a lotaria em Portugal. Em 1773 já a lotaria se realizou, ou andou «à roda», durante 34 vezes.
Depois de 1794, 1795-1798, fizeram-se duas extracções a mais. Mais tarde andou a roda tantas vezes quantas foram necessárias para fazer face «às necessidades mais urgentes». Mas isto fez atravessar alguns períodos de decadência. Em 3 de Novembro de 1862, foram criadas as lotarias de cores para maior atracção do público, sendo os bilhetes divididos, nesta altura, em quatro partes, a fim de se tornarem mais vendáveis ou acessíveis a todas as bolsas. Na extracção de 14 de Outubro de 1885 começaram a premiar-se as aproximações do primeiro prémio. Por uma portaria de 2 de Maio de 1888, o número anual de extracções foi fixado em 36.
Em 1925, o primeiro prémio foi elevado para 400 contos e, na segunda extracção de 1945, subiu para 500 contos. As extracções são actualmente semanais, havendo três extraordinárias.
Entre a classe operária, principalmente, existe o vício deste jogo.
Há casas, homens, mulheres e até já crianças que não podem passar uma semana sem adquirir jogo. O dinheiro pode faltar-lhes para o pão e outras necessidades, mas para o jogo não falta. Os pais já começam a servir-se da filhinha, ainda de tenra idade, para tirar à sorte o bilhete, julgando que o jogo favorece a inocência ou esta aquela…
- – Foi fundada em Agosto de 1715, tendo sido seu primeiro Director Montarroio de Mascarenhas, e à morte deste, o poeta Correia Garção, tendo sido interrompida em 1762, voltando a aparecer em 1778.
Em França a lotaria foi, emm 1637, classificada de «novo comércio do acaso fidelíssimo». Francisco I, em 1539, julgou a lotaria um jogo muito divertido, achando que os seus súbditos de se injuriar, de se bater e de blasfemar contra Deus; e Luís XIV, em 1700, classificou-a de muito engenhosa, porque lhe consentia empregar o grande acaso em proveito da prosperidade do país. As lotarias particulares, em França, foram proibidas nesta altura e substituídas pelas lotarias reais. Das lotarias, na França, obtinham-se no século XVII recursos para a aquisição de bombas de incêndio para todos os bairros. Edificou-se o Hospital Geral, construiu-se a ponte Royal, a igreja de S.Sulpício e a Escola Militar.
Conclusão da 1.ª coluna
da 1.ª página
sentimentos de anseios somos todos os mesmos, quer hajamos nascido em Angola ou na Estremadura, e olhando o mesmo mar em Santa Maria de Belém ou em S. Paulo de Luanda.
Depois de evocar a História Pátria, concluiu:
«Vós sois os arautos do porvir, moços de Portugal! Herdeiros da mesma pensamento que ergueu Santa Cruz à glória imperecível de Deus, e do ardor nunca apagado de dilatacão das terras portuguesas desentranhando-as em frutos para sabor de seus filhos, e bens de cultura e de paz do seu espírito. Aqui neste lugar sagrado onde repousa Afonso Henriques e viveu Santo António, onde as horas mais gloriosas ou dramáticas da nossa História bateram com solene veemência, em plena comunhão de vontade e sentimento ergamos o nosso espírito para agradecer a Deus o dom magnífico de nesta curta vigília podermos confessar o seu nome, jantando-o no mesmo amor de Portugal».
(Palestra proferida pelo Prof. Dr. Manuel Lopes de Almeida quando da visita, em 11 de corrente, dos filiados da Mocidade Portuguesa de Angola à igreja de Santa Cruz de Coimbra.)
O Rei das Meias, nosso prezado amigo sr. Eugénio Farinha, com importante estabelecimento no largo Rafael Bordalo Pinheiro, 32, na capital, seguiu em digressão para os Açores, no dia 16 do corrente, pelo avião da P. A. A.
Sobre a iluminação em Pedrógão Pequeno e ligação eléctrica para a Sanhora do Remédios, nos subúrbios da Sertã, o técnico da Câmara expôs a esta a sua opinião, terminando por informar que a Direcção Geral dos Serviços Eléctricos lhe deu conhecimento que está a ser considerado o projecto do Cabeçudo, esperando que seja comparticipado ainda este ano.
A Câmara aguarda a comparência do referido técnico para troca de impressões sobre vários assuntos que se relacionam com a luz.
Rumo… ao deus dará…
(Conclusão da 1.ª página)
uma noite mal passada nos mares do Oriente…
Vénus acompanhou-o até há pouco. Estava pálida… como a pálida água doce excessiva. Vinha despida, sem sequer trazer o manto diário… Porventura foi o Sol que a despiu na sua ânsia de beijar… ou com a inveja da sua luz meiga e mansa… ou ainda talvez vá a caminho da sua praia de banhos, a Lua, e vá pronta a entregar-se às ondas aonde se banham também, e à larga, as travessuras de Cupido…
… E agora o Sol vem só, feito poema eterno cantado à vida, feito sinfonia harmoniosa cantada ao Deus Pan. Os horizontes são agora estradas de luz… Milhares de pinheiros e oliveiras despiram já as suas neves para, em corpo e alma, lhe apresentarem os bons dias… O próprio rio não quis furtar-se ao mise-en-valeur e recebe-o com o panorama lindo das duas águas mexidas. Entendeu que seria o coisa mínimo servir-lhe de espelho ou de ecran de televisão e então meteu-o dentro da sua agitação e fez de cada bolha de sua água um pequeno sol com as suas sete cores…
O movimento das águas conjuga e dispersa ao mesmo tempo e obriga cada um desses pequenos sóis a ver qual deles primeiro se liberta da cachoeira. E` uma dança mexida de cores dançada ao sabor gritante da enxurrada. E` uma dança aflita e viva de pedras preciosas, desde a ametista ao rubi, desde o topázio à esmeralda, desde a safira até à pérola baça… dançada sobre um tapete tecnicolor de espuma que dá a impressão dum caleidoscópio por onde passam desenhos bizarros…
Que lindo é o nascer da manhã e que boa e linda seria a vida se esta contasse as suas horas, somente, pelo relógio do Sol!…
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Lá em baixo outro nascer da manhã. E` o Cabril a viver a sua primeira hora. Desgrenhado fugiu do Inferno de Dante…
A sua manhã nasce por entre salvas de artelharia e ao som do hino do trabalho.
Pinheiros feitos bouquets… Flores brancas feitas de neve… O Zêzere canta música harmoniosa com as suas águas bravas…; a Ribeira de Pêra, serra-abaixo, canta harmoniosa a canção do dever já cumprido junto das fábricas e das hortas e vem juntar-se-lhe alegre para o ajudar a encher o bojo donde, quando já for dia, há-de sair a electricidade.
…Aos meus ouvidos chegam notas duma arquestração sublime. E` a canção do trabalho cantada pela enxó, pela picareta, pelo camartelo, pela sereia, pela máquina, pelo troar da dinamite a desfazer a montanha para sobre os seus despojoa se construir a fábrica-mãe.
…que linda manhã e que lindo dia lhe sucederia se as suas vinte e quatro horas fossem dadas, sempre e cronometricamente, pelo relógio do Bem Comum!…
…O sol apresentou-se-me ao nascer com umas leves manchas escuras… Nesta manhã do Cabril se dum lado vejo uma Harmonia conjugação entre o trabalho da picareta empunhada pelo trabalhador e o compasso e a balança a medirem ea pesarem a golpes de intelogência do engenheiro; doutro vejo que só o empreiteiro vai à Praça d Figueira do pequeno burgo comprar pescada do alto para o almoço e que a candeia de azeite será a fábrica da electricidade que, só e sempre, aluminará a casa dos pobres…
…O Sol vi-o com umas pequenas manchas escuras… Talvez fossem as velas de nau em que navegou a tapar-lhe um pouco a face vermelha e quente…
…Nesta manhã eu também vejo o Cabril com uma e pequena e leve mancha negra… Talvez as velas do barco em que navega, gorda e anafada, a injustiça, a taparem a face, nobre mas esfomeada, da justiça social…
Carta do Brasil
(Conclusão da 1.ª página)
Sirvo-me desta para indicar um novo assinante, o sr. Virgílio Alves, residente nesta cidade.
Sem outro assunto é de momento, envio-lhe um grande abraço, subscrevendo-me com toda a consideração, amigo m.tº obrig.dº, José Mendes.
- da R. — Muito obrigados ao amigo e patrício José Mendes pela sua gentilíssima carta, que verdadeiramente nos emociona pelas expressões sinceras nela contidas e, sobretudo, pelas palavras justas e oportunas dirigidas à memória do ilustre e saudoso cidadão sr. António Barata e Silva, a cuja memória todos os sertanenses devem o maior respeito pelo muito que ele trabalhou pela Sertã, terra que amou entranhadamente depois de aqui lhe ficar preso o coração. Alegra-nos que o amigo José Mendes não esqueça o seu concelho e a Sertã, onde passou boa parte da meninice e fazemos os mais ardentes votos por que no Brasil disfrute, sempre, muita saúde e alcance as prosperidades e felicidades que merece.
Nova Igreja de Nossa Senhora do Amparo, freguesia de Carvalhal
Subscrição (Continuação)
Transporte, 165.551$50.
Srs. Governador Civil, Castelo Branco, 3.000$00; P. Alfredo Correia Lima, Cabeçudo, 200$00; José António Fiel, Castelo, 50$00; Maria do Carmo Baptista, Viseu Fundeiro, 400$00; Joaquina do Carmo Baptista, Viseu Fundeiro, 100$00; Daniel Nunes Pequeno, Viseu Fundeiro, 100$00; Jorge e Fernando Duarte, Pedrógão Pequeno, 100$00; Raúl de Araújo, idem, 50$00; Ângelo Mendes, idem, 200$00; Romão Vaz da Silva, (Outeiro da Lagoa), 20$00; Isidro Carvalho, Lisboa, 20$00; Alfredo Gomes, idem, 10$00; Bartolomeu dos Santos, idem, 20$00; Lemos Correia, idem, 20$00; Isabel Vargas, idem, 20$00; Francisco Baptista, idem, 20$00; Morais, idem, 20$00; António dos Anjos Fernandes, idem, 100$00; Francisco Fernandes, idem, 50$00; António Antunes, idem, 10$00; Comissão Fabriqueira, freguesia de Carvalhal, 11.815$00.
Soma, 181.651$50
(Continua)
Construção do novo cemitério do Marmeleiro
Na reunião da Câmara Municipal, de 3 do corrente, compareceu a Junta de Freguesia do Marmeliro a fim de se trocarem os necessários esclarecimentos sobre o futuro cemitério do novo cemitério, na sede daquela freguesia, ficando assente, entre a Câmara e a Junta, contratar um técnico para elaborar o projecto, sendo as respectivas despesas suportadas, em partes iguais, pelas duas entidades no intuito de ser pedida a respectiva comparticipação.




