A Comarca da Sertã nº375 22-01-1944

A COMARCA DA SERTÃ

 

ANO VIII    N.º 375                     22 JANEIRO 1944

 

FUNDADORES

— Dr. José Carlos Ehrhardt –  Dr. Ângelo Henriques Vidigal – Antônio Barata e Silva – Dr. José Barata Corrêa e Silva – Eduardo Barata da Silva Corrêa

DIRECTOR, EDITOR E PROPRIETÁRIO
Eduardo Barata da Silva Correia

REDAÇÂO E ADMINISTRAÇÃO “RUA SERPA: PINTO – SERTÃ E PUBLICA-SE AOS SABADOS

| Composto e impresso nas Oficinas Gráficas da Ribeira de Pera, Limitada :  Castanheira Pera Telefo e 16

 

hebdomadário regionalista independente, defensor dos Interesses da comarca da Sertã : concelhos de Sertã, Oleiros, Proença-a-Nova & Vila de Rei; e freguesias de Amêndoa e Cardigos (do concelho de Mação) —

 

Notas…a lápis 

«CORRIDA a canícula, Outubro vinha à baila com tempo de feição. O cálido mistral cedera o passo à doce nortada que refresca a pele encalida e perpassa na folhagem com brando sussurro. Já os caminhos madrugavam tapetados de folhas moribundas e os campos assumiam os rosados tons do Outono.

Em forros e arcazes dormiam agora as estivais colheitas, o belo pão de Deus, alquimbre e ouro, a batota seródia, tão escorreita, e 0 legume variegado, saboroso e forte. E o homem esforçado, de novo fecundara a terra avoenga coufiando-lhe a tronchuda, bem estrumada, pois mais vale prevenir que remediar e as chãs andam fartinhas de amanho.
Um prazenteiro sol aloirava os cachos das latadas, e à porta das adegas começara a lufa-lufa E enxofrar os pipos, bater as aduelas e remendar os cestos vindimeiros. Não tardaria que o mosto fumegante, puríssimo melaço, corresse em cataratas das tocas lagaretas e fosse atafulhar o bojo dos tonéis.

Lindos dias êsses, quando o sol já mal queima as frontes descobertas, antes põe nos raios carícias maternais e brinca nas cabeças fulvas dos catraios como borboleta roça as asas nas pétalas das rosas.
Cuidado, porém, com o frescor traiçoeiro das noites que nos rócios das flores moribundas ocultam germes de outoniços males. Estes, hospedados nos corpos com bagagem de febres, só despedem por vezes depois de fanorem viço aos sofrentes». E

Vergílio Godinho (De «Calcanhar do Mundo» ).

 

POR ter saído cheia de asneiras tipográficas, novamente se publica a ante-penúltima «nota a lápis», publicada na 1º coluna da 4.º página do número anterior. E se bem que o espaço nos seja precioso, não podemos deixar de a inserir de novo, na integra, porque há erros que nos deixaram aturdidos de todo! O que nos admira é que o revisor os tivesse deixado passar.

«Com que então podemos dar como certa a representação duma revista de costumes locais para festejar a reabertura do nosso Cine-Teatro ?

“E verdade. Já o dr. Ângelo Vidigal começou a alinhavá-la e, por certo, será obra de truz, engraçada e cheia de vivacidade, em que ele porá todo o seu esmero, aptidão e experiência, salpicada da graça, do cómico e do ridículo que não magoam nem ofendem, a casar-se com a índole do meio. Escusado será dizer que outros elementos colaborarão na revista.

Deitaram-se as vistas para os possíveis intérpretes, concluindo-se que abundam os masculinos e quanto aos femininos, com um . pouco de paciência e jeito, sempre se arranjarão actrizes é girls de valor, figurinhas de bom contôrno, palminhos de cara, de voz e dicção sofríveis.

Quanto à parte musical e coral não faltam óptimos colaboradores, que hão de pôr à prova todos os seus recursos.

Vai a Sertã entrar numa nova fase para quebrar a monotonia em que temos vivido, e ainda bem.»

 

CONSUMADA a execução de Verosa, laconicamente citada pelas agências telegráficas— duas linhas frias, insensíveis e descoloridas—a nosso espirito sentiu-se acabrunhado, perpassando, nele, mais um acto- este bem doloroso e impressionante—da tragédia horrível em que vive a Itália—a grande nação latina —, que principiou no dia em que se lançou na guerra, sonhando com a glória, a grandeza e o imperialismo dominador à maneira dos Césares…

Pobre pais que se embriagou com as grandes conquistas, deixando-se arrastar pela miragem duma vitória fácil. A sua insensata megalomania não deixou ver que tudo lhe faltava para tamanha tarefa, desde o pulso rijo a força moral que não enfraquece nem desfalece nas horas amargas da luta ou perante os maiores sofrimentos e angústias.

A ambição paga-se por elevado preço, em sangue, lágrimas, dores e renúncia a todas as aspirações da alma humana, mesmo àquelas que constituem o mínimo a tornar a vida digna de ser vivida.

Ciano, De Bono,.. mártires da tragédia espantosa que se abateu sobre o infeliz povo italiano com um fragor que, fazendo tremer os próprios alicerces da nação, sepultou, para sempre, nos escombros, as esperanças de grandeza e tornou útil o heroísmo e sacrifícios de vidas em holocausto a uma missão histórica assente em falsos conceitos.

 

HÁ muita gente na Sertã que entende dever continuar a fazer montureira nas ruas, deitando no pavimento os estrumes mal cheirosos das possilgas e cavalariças, quando um elementar respeito pelos transeúntes e a higiene pública lhes impõe o dever de lançar os estrumes directamente das lojas ou quintais para os veículos que os hão de transportar.

Não custava nada fazer isto, mas a gente habituada à porcaria tem sempre relutância em ser asseado ou mesmo… parecer!

(Continua na 4. pagina)

 

Quando terá a Comarca da Sertã uma casa regional em Lisboa?

“ POR  João Farinha Figueiredo

Eu posso lá calcular quanto comporta o efectivo da colónia Sertanense em Lisboa?

Por tôda a parte se encontram elementos dispersos que de nariz no ar, procuram alguma coisa. Nem êles talvez saibam o quê!..

E uma ância que por vezes se transforma em aflição; como alguem que se procura a si próprio sem ter possibilidades de se encontrar. E” qualquer coisa que impede por vezes a alegria de viver.

Não basta o encanto poético do Tejo, com tôdas as ninfas camoneanas, Não bastam tantas outras paisagens surpreendentes que se disfrutam por todos os cantos. Não basta o teatro, o cinema e tantos outros divertimentos. Não basta o encantador sorriso duma mulher bonita, com o agradecimento a um lindo madrigal, no Chiado, às 5 horas.

Falta mais alguma coisa que intimamente nos console, fazendo destacar em nós como que uma falta de satisfação causada pela saudade. Qando se encontra alguém da Sertã, o que felizmente é frequente, essa satisfação aparece. Fala-se na terra nos nossos, criticam-se e levantam se projectos que, infelizmente, não passam de palavras, visto não haver um ponto de reunião. O Sertanense é refractário à frequência do café, salvo raras excepções. O mesmo não se dá com os naturais do Minho, Traz-os-Montes e Alentejo, etc… São associáveis, cativantes e, por vezes, dignos da admiração pela maneira como êles falam da sua terra e dos seus.

Há dias fui convidado para um passeio por um amigo natural de Viana do Castelo. Brioso académico da Faculdade de Direito, rapaz alegre nos seus 25 anos, de posse de certa jovialidade muito semelhante à do melro do nosso querido Junqueiro, com uma pontinha de fina ironia, influenciada, com certeza, da sua manifestada admiração pelos escritos do nosso Eça. Depois de chegarmos a acôrdo em certos princípios não especificados nos Códigos Civil e Comercial, achámos por bem dar por finda a calorosa discussão, convidando eu, o meu amigo, a ir tomar um café.

Foi um caso sério!. – Eu reclamava o Portugal como café elegante, onde s: junta a fina flor da mocidade, onde as mulheres sorriem com mais franqueza e onde parecem enganarem menos! O meu amigo reclamava o Nacional, alegando razões diversas. Para terminar a discussão, atirámos a clássica moeda ao ar, em pleno Rossio !
Venceu o meu amigo e aí vou eu, resmungando, vencido, para o Nacional, supondo ter de passar umas horas aborrecidas no meio de gente da época medieval, onde impera o estafado estilo palaciano com Vossa Excelência para aqui e Doutor para acolá, certamente nada simpático como o vulgaríssimo Zh pá!… tão bem aceite pelos meninos e meninas da boa sociedade que saltam o eixo! Prefiro o senhor de entrada e o tu de saída.

A orquestra saúda a entrada com qualquer coisa a que não liguei importância. Sentámo-nos ao acaso, junto duma mesa, para tomarmos o café. Depois de farta conversação, preparáva-nos para sair quando o meu amigo cumprimenta um oficial de Marinha, que se juntou a nós. O meu amigo apresenta-mo e passamos à carga, recebendo eu um pouco de apoio do recêm-chegado. Após uma reconciliação, chega outro amigo do meu amigo, depois outro e ainda outro, sucedem-se as apresentações com novos elementos que constantemente engrossam o nosso grupo, vindo eu a contar na nossa minúscula mesa nada menos de 18 amigos!

Verifiquei que se não falava ali dos aborrecidos princípios de carácter didático, nada de oratória, mas de pequenas narrativas impregnadas do perfume sádio das suas regiões. Ali falava-se da prima, da Francisquinha da Fonte, da filha do Doutor, de casamentos. de pequenos escandalozinhos, da mocidade das suas regiões. Comentava se, quasi linha por linha, parágrafo por parágrafo, o «Diário do Minho», etc. ete.. .

Ali imperava a terra que lhes serviu de berço. Ali, a saudade do ninho, embora frio pela ausência, mas sempre o ninho querido. –

Leitores da «Comarca»! Ali falava-se do auxílio ao desprotegido da terra, da recomendação que se podia angariar para A e para B., da protecção àqueles que necessitam de assistência, etc.

Confesso que me sentiria deslocado se não fôssem os conhecimentos que possuo das regiões em questão, Mas uma revolução íntima me dilacerava a alma ! Nada se dizia da nossa santa terra, onde há encantadoras ribeiras, onde os rouxinois se degladiam nos seus maviosos cânticos! Onde há um  adro onde os melros se misturam com os papas-figos! Onde há alegros Marias! Onde há casamentos ! Onde há escandalozinhos ! Onde há de tudo sempre novo, que alegra a alma e notabiliza o espírito !

Mas quê !… Não tem em Lisboa, como aquelas províncias, uma casa regionalista onde se tale dos seus encantos, das suas belezas, das sua máguas e das suas tristezas!…

A colónia Sertanense, muito mais numerosa que a de certas regiões do Minho e doutros pontos, tem as suas necessidades e pode prestar o seu auxílio.

Eu também: poderia dizer ao Doutor que A e B necessitavam da sua presença.

As terra, A terra…

A Sertã de Sertório e de Celinda quando terá ela a sua casa regional em Lisboa ?

Novembro — 1943.