A Comarca da Sertã nº885 10-02-1953

A Comarca da Sertã

Representante em Lisboa:
João Antunes Gaspar
L. de S. Domingos 18 s/l — Tel. 23305

Director Editor e Proprietário
Eduardo Barata da Silva Corrêa

Publica-se nos dias 5, 10, 15, 20, 25 e 30
Sertã, 10 de Fevereiro de 1953

Periódico regionalista, independente, defensor dos interesses da Comarca da Sertã: Concelhos da Sertã, Oleiros, Proença-a-Nova e Vila do Rei
(Visado pela Comissão de Censura)

Ano XVII — Redacção e administração: Rua Serpa Pinto — Composição e Impressão: GRÁFICA CELINDA, Lda. — SERTÃ — N.º 885

Reconhecimento

A recente homenagem prestada ao grande industrial sr. Libânio Vaz Serra, de Cernache do Bonjardim, traduzia, indiscutivelmente, o reconhecimento, por parte da «Casa da Comarca da Sertã», em Lisboa, da sua acção benemérita em benefício de muitos necessitados que apelam continuamente para os serviços médico-cirúrgicos daquela instituição. Este o motivo que ditou a homenagem, mas ela, afinal, ultrapassou, excedeu a barreira da ideia inicial para se dilatar até muito além, até incomensurável distância; é que essa manifestação foi uma autêntica apoteose ao homem, que, com o seu dinheiro, a sua iniciativa e o seu saber — mas muito principalmente com o seu coração, este a mola impulsionadora — tem proporcionado trabalho a centenas de operários da nossa região e até de muitos outros pontos do País, dando-lhes o pão a ganhar.

Eis, pois, o motivo por que a manifestação, que a princípio parecia dever ser de simples reconhecimento — enquadrada apenas numa das facetas do carácter bondoso do sr. Vaz Serra — se transmudou em autêntica apoteose.

Os operários, a massa dos trabalhadores que é protegida pelo sr. Libânio Serra não se manifestou com discursos, mas nesse dia de festa sentia no seu peito irromper a chama da gratidão sincera pelo homem, que, sem alardes nem prosápias, alheio a vaidades, tem exercido no campo social uma acção digna do reconhecimento público.

 

«O Mundo livre não pode permanecer indefinidamente numa tensão paralisada, deixando sempre ao agressor a escolha do momento, do local e dos meios para provocar o maior mal com o menor custo para ele próprio».

No domínio da política externa o governo americano vai definir uma atitude nova e positiva sob princípios imutáveis. A nossa política externa deve ser clara, consistente e confiante, resultando duma colaboração de todos os instantes entre o Executivo e o Legislativo e inspirando-se no espírito bipartidarista sincero. A nossa política tem de ser global e coerente. A liberdade a que tanto queremos e que defendemos na Europa e nas Américas não é diferente da liberdade que está ameaçada na Ásia. Nunca daremos a nossa concordância à escravização de qualquer povo, seja qual for, com o fim de procurarmos vantagens ilusórias».

(Afirmações do Presidente Eisenhower na mensagem ao Congresso)

 

A grande catástrofe na Holanda

«O mar rebentou os diques, mas a caridade cristã é mais forte que a força do mar», diz a Caritas Portuguesa no seu apelo à população portuguesa para que preste socorro às crianças holandesas.

Hoje por elas, amanhã pelas nossas — exclamamos nós.

A Emissora Nacional tem dirigido, diàriamente, solicitações às famílias portuguesas para que recolham as criancinhas holandesas, vítimas das terríveis inundações que levaram a miséria e a morte à sua pátria.

E no mesmo sentido, a Caritas Portuguesa lançou esta mensagem, bem expressiva, que deve ter já tocado o coração de muitos portugueses:

«Milhares de crianças holandesas sofrem, neste momento, os horrores da fome e do frio. É preciso socorrê-las.

A Caritas, com sede na rua Marquês da Fronteira, 10, rés-do-chão, esq.º, em Lisboa, lança imediatamente o seu apelo, no sentido de um rápido movimento de solidariedade cristã a favor das pobres crianças holandesas. Conforme aconteceu com as crianças austríacas, alemãs e francesas, são agora as crianças da Holanda quem precisam da nossa ajuda. Vamos em seu socorro. O mar rebentou os diques, mas a caridade cristã é mais forte que a força do mar.

Precisamos, urgentemente, de milhares de famílias portuguesas, que ponham os seus lares à disposição das pobres crianças da Holanda submergida.

As inscrições devem ser enviadas à sede nacional da Caritas, rua Marquês da Fronteira, 10, rés-do-chão, esq.º, ou às sedes das comissões diocesanas.»

 

 

Plano de Urbanização,

casas de renda acessível às classes remediadas, mercado coberto et reliqua…

por Dr. Flávio dos Reis e Moura

Foi sempre assim, e a História não podia deixar de repetir-se em relação à Sertã. Volta a estar na berlinda o plano de urbanização desta Vila, ao que se ouve por aí dizer e um pouco se descortina através dos concisos relatos que chegam ao conhecimento do público pela leitura do periódico local — única fonte fidedigna de informação para o comum dos mortais — e enquanto o é, por isso que, a quem quisesse ir documentar-se miudamente à origem, isto é, à Repartição competente, podia acontecer-lhe a contrariedade de ser inteirado de que, por força de uma deliberação, aliás absurda e com sua pontinha de discriminatória e petulante, de meados de 1950, ainda vigente posto que caída presumivelmente em desuso, todos os assuntos sujeitos à apreciação camarária, mesmo os de simples expediente, são de natureza secreta ou confidencial.

Chegou-se à conclusão — vamos lá com Deus que já não era sem tempo — de que na verdade o único meio de quebrar o enguiço que se opôs desta terra é pôr em andamento decidido o plano de urbanização, visto deste ponto de partida depender a resolução ulterior e apropriada de um sem número de problemas que aguardam pacientemente a sua hora de atenção por parte da administração municipal e da governamental ou central, tocantes ao desenvolver legitimamente apetecido da sede do concelho, por cuja sorte tantos apregoam interessar-se mas nem sempre coincidindo as belas palavras com actos que harmonicamente se casem com elas.

Entre esses problemas a todos sobrelevam neste momento os da implantação do mercado coberto e dos bairros de casas de renda económica e para famílias de recursos notoriamente limitados. Ao abordar este ingrato tema importa, porém, que se ponha uma questão prévia, a qual consiste, fundamentalmente, em saber se as entidades concelhias responsáveis e que na matéria terão que se pronunciar em ordem à urgente modificação do ante-plano de urbanização, se preocuparão mais com os destinos presentes e, em especial, futuros da Sertã e dos seus habitantes.

(Conclui na 3.ª pág.)

 

QUIMERA

Olho para trás!
— Vai tudo em fugidio encantamento…

Sombras, quimeras, ilusões perdidas.
— Que resta dessas páginas tão belas?
Oh! — Tangem ainda na minh’alma
Em doce melodia,
Em doce sofrimento
Que faz do coração algoz tirano
P’ra me mostrar tão grande desengano.

Olho para trás
Mais uma vez ainda;
E vejo-te afastada, ó mocidade.
E vejo-te fugir, quimera linda…
— E tu voltarás um dia?
— Patética ilusão!
Irreal pensamento.
Quisera atrás voltar um só momento.

Olho para trás!
E vejo agora a tua bela imagem
Tal qual uma miragem
Em alva nebulosa esfumada…

— E sigo-te de perto;
mas não te alcanço mais.
— Ai! Quanto mais te sigo, mais tu foges;
E quanto mais tu foges, mais te perco…
Mas para trás também tu hás-de olhar
No Infinito! — Hemos de parar.

Janeiro de 1955.

Américo Martins do Amaral


A Comarca da Sertã


 

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Aceitam-se REVENDEDORES CONCELHIOS para os concelhos da
Sertã e Proença-a-Nova.

 

ANUNCIO

(1.ª publicação)

No dia vinte e um do próximo mês de Fevereiro, pelas dez horas,
à porta do Tribunal Judicial desta comarca, em virtude dos autos
de carta precatória para arrematação, extraída dos autos de acção com processo sumário , em execução de sentença que Luís Baptista, L.da, da cidade de Santarém. Move contra António Maria e João Bento da Cruz, residente em Casalinhos da Isna de São Carlos, freguesia de Várzea dos Cavaleiros, desta comarca hão-de ser postos pela primeira vez em praça, para serem arrematados, pelo maior lanço oferecido, superior ao que adiante se indica, os seguintes prédios, pertencentes aos referidos executados, a saber:

PRÉDIOS A ARREMATAR:

Do executado António Maria:

Horta, testada de monte e pinheiros, na Corga, limite do Casalinho da Isna de São Carlos, freguesia de Várzea dos Cavaleiros, descrita na Conservatória do Registo Predial sob o nº 35.185 do Livro B 89, e e inscrita na respectiva matriz sob os art.º 9.656, 9.896 e 9.900.- Vai à praça no valor de 264$00

Courela de mato e pinheiros e um bocado de terra de cultura e oliveiras, no Covão do Feto, limite do Casalinho da Isna de São Carlos, freguesia de Várzea dos Cavaleiros, descrita na Conservatória do Registo Predial sob o n.º 34.099 do Livro B 89, e inscrita na respectiva matriz sob os art.º 9.920, 9.924, 9.928, 9.929 e 9.953. –

Vai à praça no valor de 582$00.

Do executado João Bento da Cruz:

Terra com oliveiras, figueiras e videiras, sita no Serro Boeiro, limite do Casalinho da Isna de São Carlos, freguesia de Várzea dos Cavaleiros, descrita na Conservatória do Registo Predial sob o n.º 34.097 do Livro B 89, e inscrita na respectiva matriz sob os art.º 9.149 e 9.159.- Vai à praça no valor de 79$00.

Sertã, 22 de Janeiro de 1953.

VERIFIQUEI.
O Juiz de Direito, 1.º Substituto,
Carlos Martins

O Chefe da 2.ª Secção,
Armando António da Silva

Rapaz ou rapariga

De mais de 12 anos, que saiba ler e escrever bem e fazer contas
com desembaraço, precisa-se, preferindo-se o que tenha alguns
conhecimentos de dactilografia e escrituração comercial.
Aqui se diz.

Artigos de Carnaval

Caraças, pistolas, fulminantes confeti, serpentinas, cabecinhas, bonés e gorros de fantasia, máquinas fotográficas, etc.
Vendem-se na Papelaria da Gráfica Celinda, Lda. — Sertã.

António Pedro Dias:
Acompanhado de sua família, regressou à cidade de Moçambique,
na África Oriental, no dia 16 do findo mês de Janeiro, este nosso amigo, desejando-lhe muito boa viagem, saúde e felicidades.

A marcha triunfal

que festejou a ascensão de Eisenhower à Presidência da República da grande Nação Norte-americana

Vale a pena arquivar, nestas colunas, o que foi essa grandiosa
marcha de 17 quilómetros não só pelo pitoresco e colorido,
mas pelo seu alto significado potriótico.

O desfile foi aberto pelas bandeiras dos 48 Estados e pelos
cadetes de West Point.

As janelas estão replatas e nas arvores há «cachos» de garotos. As mães, aflitas, mandam-nos descer, mas os gritos do povo não deixam que elas sejam ouvidas. De tempos a tempos passam ambulâncias tocando as sereins alguém que perdeu os sentidos. Em 1948, houve 250 pessoas vitímas de acidente. Este ano é provável que o número seja maior.

No meio do entusiasmo áelirante do público, o presidente chega à Casa Branca, onde não entra imediatamente. Rodeado pelos seus amigos republicanos, que esperavam este dia há vinte anos, instala-se num estrado, construído ao ar livre, mas com aquecimento, para assistir ao desfile que vai durar três horas. Antes de se sentar, Eisenhower aperta a mão de um velho amigo, o genaral George Marshall, que o «descobriu», no Pentágono, eo nomeou comandante das forças aliadas durante a guerra e que hoje está a seu lado, no lugar de honra.

Começa a parada. Desfilam, primeiramente, as bandeiras dos quarenta e oito Estados. Seguem-nas 2.000 cadetes da Escola Militar de West Point Eisnhowr acena, de pé, á passagem dos garbosos rapazes em uniforme de gala e «Mamie» dá palmas.

Os índios, agitando as suas plumas, precipitam-se para ele que lhes apertou a mãe

Passa, em seguida, um carro simbolizando a «fé religiosa», que foi colocado na frente do cortejo para agradar ao presidente. Os sinos do carro tocam alegremente. Figuram nele as imagens sagradas de todas as religiões praticadas na América, de grevas brancas, passam, marchando melhor que os de West Point. E surgem, depois, os indios brandindo as machadinhas de guerra. Precipitam-se na direcção de Eisenhower que lhes aperta efusivamente a mão. Dão alguns passos de velhas danças guerreiras agitando as grandes plumas de todas as cores que lhes caem pelas costas até ao chão. Mais um carro alegórico: Washington, de chapéu armado, com plumas, atravessando o Delaware. Seguem-se bandas de música com uniformes vistosos, brancos, vermelhos, verdes e azuis.

O Kansas, Estado onde nasceu o presidente, enviou uma delebação de «cowboys» e outra de lindas raparigas de saia curta. Os cavalos fazem evolução. No carro vê-se, em papelão, um moço leiteiro de grandes dimensões. Representa o jovem Eisenhower de Abilene. A Polícia Montada da Pensilvânia apresenta-se com soberbos cavalos pretos. A América, país da mecânica adora os cavalos. Na parada de hoje figuram milhares de equídeos e causam sempre sensação. Um «cow-boy», isolado, galopa ao longo da multidão fazendo voltear o laço e «apanha», de passagem, um policia, que não aprecia a brincadeira, mas Mamie aplaude a proeza. Animado pelo sorriso da esposa do presidente, o «cow-boy» pede licença a Eisenhower para lhe lançar o laço. O presidente acede e levanta-se. O «cow-boy», triunfante, atira a corda que se enrola em volta do pescoço do presidente. Desta vez, «Mamie» assusta-se, mas o presidente fica encantado. Os agentes da policia precipitaram-se instintivamente para juntodo presidente, mas não tão depressa que pudessem impedir os fotógrafos de fixar a cena nas suas películas.

Beldades, cavaleiros e negros vestidos de Tio Sam…

Desfilam as primeiras «majorattes»(tambores femininos, indispensáveis em todos os cortejos americanos). Vestidas de branco, de pernas ao leu, fazem girar velozmente os batões e levantam, ao mesmo tempo, a perna à altura da cabeça.

A Polícia a cavalo da Califórnia apresenta soberbos animais «palominos». As selas são ricas e os arreios marchetados de prata. No carro do Kentucky, Halda Mayburry, campeã do Mundo das «majorettes», faz girar o bastão como se fosse uma hélice de avião entre dois saltos mortais. Mas o público repara, principalmente, nas suas pernas, de plástica irrepreensível…

Os representantes dos negros republicanos de Nova York disfarçam-se de Tio Sam, com calças vermelhos, cobertas de estrelas, e casacos azuis, com riscas brancas. A frente da delegação da Carolina do Norte gestícula um homem vestido de turco, brandido um cimitarra, não se sabe bem porquê…

Vermont, que sempre votou pelo partdo Republicano, apresenta um carro com um enorme alambique e uma inscrição: «Vermont é o átomo que ninguém pode desintegrar». E a única alusão à energia atómica, em todo o cortejo.

No carro do Maine, quinze lindas raparigas apresentam-se, corojasamente em fatos de banho, apesar do frio, pois o sol está encoberto. Passam mais raparigas de saia curtae, coroando o desfile de beldades Misse América, ex-Misse Video Vénus, ex-misse Televisão, surge no meio de palmeiras, no carro da Florida. Traz, também, fato de banho, mas sobre os ombros nus uma capa de zibelina. O efeito é irresistível.

Os números sensacionais do cortejo: os elefantes, símbolos do partido; o canhão atómico e as pombas da paz

Desfilam mais marinheiros, aviadores, soldados de infanteria e guardas costeiros.

O carro da Lusitânia representa um bairro de Nova Orleans e celebra (com um ano de avanço) o 150º aniversário da compra da Lusiania á França pelos Estados Unidos.

Eisenhower está de pé, no estrado, há mais de duas horas, e começa a mostra-se cansado. Não quer, porém, sentar-se. E o cortejo continua: um regimento de páraquedistas e tanques Patton, Finalmente, surgem os elefantes, A` frente vem como lhe cabe a célebre misse Birmânia, «mascote» oficial do partido Republicano. O entusiasmo do público toca as raias do delírio. O enorme paquiderme para diante do presidente e a um sinal do cornaca, faz uma reverência impecável, continuando depois, placidamente, o seu caminho.

O carro do Idaho figura uma cascata artificial com água a valer. O segundo elemento de sensação da parada é o canhão atómico. Ei-lo que chega trazido por dois enormes camiões. Pesa 70 toneladas. O terceiro e último número sensacional do cortejo passa defronte da Casa Branca quando já começa a anoitecer é o carro do distrito do Colâmbia. Representa um globo terreste rodeado de cestas com pombos vivos. Simboliza o desejo de paz de todos os povos. No momento em que o carro passa defronte da tribuna presidencial os pombos são largados, num sussurro de asas.

Já é noite quando o novo presidente dos Estados Unidos e sua esposa entraram na Casa Branca à luz dos projectores. «Mamie» não terá tempo de dar uma vista de olhos de dona de casa porque te de mudar de vestido para ir ao baile. A multidão dispersa estafada, mas contente.

Vão começar os bailes em toda a cidade.- (F.P.R.)

 

Receita em benefício dos Bombeiros Voluntários de Proença-a-Nova

Domingo, 15 de Fevereiro
às 20,30 h., no Salão do Grémio Escolar

Actuação do Grupo Cénico dos Bombeiros Voluntários de Proença-a-Nova
num variado espectáculo composto pela conhecida peça em 3 actos
“Terra Firme” e um original acto de variedades de sabor carnavalesco.

No acto de variedades a: Um réu com lágrimas de crocodilo-Vibrante acusação-Convincente prova testemunhal-Estrondosa defesa-Esmagadora condenação-
Cumprimento de pena maior com acompanhamento à viola em ré menor.

Espectáculo sem classificação especial.

Estão vagas as escolas:

Feminina de Cunqueiros, concelho de Proença-aNova, e Castelo, concelho da Sertã: e mistas de Atalaia de Estêvão Vaz, Vale da Ursa e Vergão, concelho de Proença-a-Nova.

PAPEL

De jornal e fragmentos vendem-se pequenas ou grandes quantidades.

Aqui se diz.


A Comarca da Sertã


 

Informações úteis

Contribuições e Impostos

Durante o corrente mês de Fevereiro, podem ser ainda pagas, acrescidas de juros de mora à taxa de 0,7%, as contribuições e impostos cujo pagamento não tenha sido efectuado durante Janeiro.

Imposto complementar

Termina no dia 28 de Fevereiro o prazo para a entrega das declarações mod. 1 de imposto complementar a que são obrigados todos os indivíduos que possuam bens imóveis em concelho diferente daquele onde residem.

A declaração não precisará de ser renovada desde que já tenha sido entregue em anos anteriores e não haja alteração nos rendimentos dela constantes.

Imposto de camionagem

Termina no próximo dia 5 de Fevereiro o prazo para o pagamento voluntário deste imposto, que relevará se não for pago até àquela data.

Imposto de compensação

O imposto de compensação, devido pelos proprietários de veículos a gasolina, referente ao primeiro trimestre deste ano, pode ainda ser pago, sem juros de mora, até ao dia 15 de Fevereiro, relaxando o que não for pago neste prazo.

Rendas de casa

Devem ser pagas até ao dia 8, aos respectivos senhorios, as rendas de casas.

Reclamações de contribuições e impostos

Durante o mês de Fevereiro poderão ainda interessados reclamar nas secções de finanças contra erros nas liquidações de colectas, duplicação ou anulação destas, bem como a transferência de prédios para nome dos novos possuidores.

Notícias de Proença-a-Nova

— Efectuou-se, ultimamente, nesta freguesia, durante as missas, um peditório cujo produto é destinado para as obras do Monumento Nacional a Cristo Rei.

Várias pessoas desta freguesia têm-se inscrito no Plano Trienal da construção do mesmo Monumento.

– como nos anos anteriores, celebrou-se no dia 20 de Janeiro a festa de S.sebastião, que constou de procissão com a Sua Imagem, da Sua capela para a Igreja Matriz, onde foi cantada missa solene; ao evangelho subiu ao púpito o rev.º José António Lopes, coadjutor desta freguesia, que falou sabre as bem-aventuranças e sobre a vida do grande Mártir S. Sebastião.

Em seguida, a imagem voltou de novo para a sua capela, acompanhada de muito povo e da filarmónica.

Despedida

António Pedro Dias, mulher e filho, regressando a Moçambique inesperadamente e, não tendo, por este motivo, tempo suficiente para se despedirem de todas as pessoas da sua amizade e relações, fazem-no por este meio, agradecendo todas as provas de consideração dispensadas durante os meses de férias em que permaneceram na Sertã ou na Várzea dos Cavaleiros e oferecendo, naquela cidade, os seus limitados préstimos.

Plano de Urbanização

(Concluído da 1.ª página)

do que com não concitartar a animosidade de compadres e amigos porque, enfim, antes será de boa prudência não ferir os interesses de A. B. ou de C. para… se não apagar o sol nas alturas…

Bom é que esta questão prévia tenha uma resposta clara que se não preste a interpretações ambíguas, para o bem dos munícipes desde logo ficaram a saber se se vai trabalhar a sério ou se, pelo contrário, ao abrigo do estilo findo pela legenda picaresca de «quem fica que anda-mas-não-anda».

E que a mistificação posta em cena em 1949, com as consequências que estão á vista de todos, ao influxo do desastrado resultado das eleições políticas dos princípios desse ano, — no qual resultou alguns que solertemente ao depois se arvoraram em feros julgadores e austeros censores tiveram bem averiguadas responsabilidades, — e sob pretexto de umas quantas extensões arbitrariamente ordenadas (segundo se divulgou por tanto tempo) nas redes de baixa tensão montadas na primeira fase da electrificação do concelho, não pode repetir-se com seus laivos de baixa comédia. Então, ainda houve espíritos ingénuos e candidamente crédulos que se deixaram arrastar pelas aparências, certos deles se contando até em esferas onde é simplesmente espantoso que aquelas pudessem achar guarida e gasalho- sem pensarem que, por vezes, em um lado se põe o ramo e em outro se vende o vinho, que é como quem diz, a celeuma levantada poderia aparentar intentar arrasar o responsável, formalmente considerando como tal, pelo resultado das eleições quando, verdadeiramente, o que se visava era desgotar e fatigar até ao enfado a única pessoa de quem se suspeitava- só Deus sabe com quanta razão, ou se com nenhuma razão- ser capaz de levar por diante o ante-plano de urbanização, doesse a quem doesse, custasse o que custasse…

Para se escolher o local da implantação do mercado coberto não poderá ser a classe comercial a única parcela da população fixa da Vila de Sertã, cujos interesses deverão ser considerados; e quando mesmo fosse assim, convém não esquecer que há mais comerciantes estabelecidos no perímetro desta Vila aforca aqueles que teem os seus estabelecimentos situados nas imediações da Praça da República.

Outro tanto há que dizer relativamente aos locais para a edificação do bairro de casa de renda económica e do destina ás classes débeis ou pobres. Haja a caoragem, senhorews, de romper por onde seja preciso, sem tibiezas impróprias de quem exerce lugares de responsabilidade política e administrativa nem contemporização deslustrantes – só para salvar paredes carunchosas ou vacilantes, casebres insalubres ou casas mal estimadas por seus donos e, ainda, certos tratos de terrenos de valor mais ou menos discutível em função de subjectivismos ainda mais discutíveis do que o próprio valor de tais terrenos.

Isso acarretará desgostos, provocará amuos em alguns compadres, implicará a cessação de umas quantas patuscadas em recintos mais ou menos confortáveis? E` possível

Mas será semelhante alternativa bastante poderosa para fazer qualquer criatura desviar do que repute a linha mestre do cumprimento do seu dever, trocando o bem da comunidade pelo misero prato de lentilhas da falaciosa gratidão de amigos que tão pouco prezam o bom nome alheio, que lhes não treme um só musculo do rosto ao apresentarem alvitres e sugestões que talvez eles mesmo não aceitassem se partidos de outrem, desde que estivessem investidos na missão de resolver e decidir?!

E não se riposte que esses tais amigos são elementos graduados da actual Situação Política ou que ocupam nos quadros directivos posições de destaque, como argumento suficiente para fazer flectir a rigidez duma norma de comprovado interesse público, que lhes deviam ser os primeiros a respeitar como soldados disciplinados duma causa digna de que por ela se façam os maiores sacrifícios porque, ao fim e ao cabo, é a causa do progresso local sob a égide da Revolução Nacional do 28 de maio Nem se objecte que, se se ousasse fazer retroceder tais elementos para além de certas linhas definidoras a daquele interesse, se criaria agudo problema político, por falta de elementos capazes de aceitarem a herança que se abrisse! Isso é apenas a papão que por aí se agita; mas que fosse verdade, que se podia correr esse risco, talvez valesse a pena corrê-lo, porque as compensações a obter junto da massa neutra perante um acto da mais elevada justiça social poderiam ser de molde e volume a neutralizar a defecção ou o indiferentismo dos outros.

De resto não seria caso de perguntar, se isso viesse a acontecer, para que servem amigos que debandam em difícil hora, só porque se viram ameaçados de um ligeiro toque nos seus interesses?

Veem estas considerações a balho de foice por virtude do conhecimento que ao público chegou, de uns ofícios trocados entre a Câmara Municipal do nosso concelho e outras entidas por motivo da inclusão da construção do mercado coberto desta Vila no plano de obras para o ano corrente. Crê-se que a Câmara teria feito essa inclusão indo de encontro às solicitações da opinião pública, e só é de louvar, nesse particular, a sua iniciativa; mas não se reflectiu que a pretensão havia de esbarrar com a dificuldade ou o embaraço com que efectivamente veio a esbarrar. E`o que acontece por via de regra quando se trabalha descoordenadamente; e é licito assim exprimir desde que não sofra contestação que o Corpo Administrativo em foco não tem realizado ultimamente um esforço firme e persistente em ordem a conseguir das instâncias competentes o andamento do plano de urbanização.

E` certo que se tem expedido uns tantos ofícios para qui e para acolá, mas isso não basta para imprimir nos munícipes e nas entidades superiores a convicção de que a Câmara está animada do propósito de dotar a Vila sede do concelho com o seu plano de urbanização. Além disso, o estudo de assuntos deste melindre e que afectamo desenvolvimento dum agregado urbano como o constituído pela Sertã, não se compadece com meras assinaturas de cruz em expediente discutido literalmente com o pé no estribo…

Será possível, por grande que seja a boa vontade de servir, extraordinária que se presuma a intuição na apreensão das matérias submetidas a exame, que se possa dominar estas numa rápida vista de olhos, quando esse método passa a tomar foros de sistema?

Só inteligências possuindo dons quase divinatórios seriam capazes de semelhante façanha; mas o comum dos mortais seguramente que não.

Portanto, para resumir, pode afirmar-se que não se denota senão ânimo de embair os benefícios produzidos no plano de obras para o ano corrente, da construção do mercado coberto. Venha ele a edificar-se afinal no local de princípio reputado, venha ele a ser implantado em outro local — que não se vê qual possa ser, por isso que a localização sobre os terrenos circundantes à ribeira pequena ou de Amioso, entre a Avenida Baima da Bastos e o Largo fronteiro, não merece a pena que se perca tempo a discuti-la, sobretudo hoje e desde que está prevista a abertura, em futuro próximo, do variante à estrada nacional, que atravessa a Vila de Sertã, em direcção ao Alto de Santo António, a partir da confluência da estrada municipal que conduz ao cemitério — o que importa é não meter o carro adiante dos bois.

Isto é primeiro, há que situar, em definitivo, o local para o mercado; depois, mandar fazer o projecto respectivo, e só por fim, pedir a sua comparticipação a quem de direito pela inclusão no plano anual de obras a executar. É que de contrário bem pode suceder que, perdida a oportunidade de em determinado ano a obra ser comparticipada por não estar devidamente projectada, só volte a ser considerada daí por uns poucos de anos, como é de uso quando se deixa decair qualquer peticão por culpa da entidade peticionária.

— A não ser que seja precisamente isto que a Câmara pretenda, para tentar agradar a gregos e a troianos, num exibicionismo perfeitamente maquiavélico. Mas se o foi, há que deixar consignado que foi muito mal entendido, porque os tempos não correm propícios a malabarismos deste jaez. Vêm aí à vista as eleições para a Assembleia Nacional e para o ano haverá eleições administrativas, face que certamente será ponderado por quem tem a função de auscultar os astros — porque governar é, fundamentalmente, prever, disse-o um grande doutrinador político francês recentemente falecido com provecta idade.

Ou eu muito meu engano, ou as eleições no concelho de Sertã obrigarão a dispender grande esforço de catequização áqueles que têm a missão de converter cépticos e de não deixar perderem-se crentes desiludidos à vista de espectáculos pouco edificantes.

Flávio dos Reis e Moura

Carta de Amigo

«Desejo-lhe saúde e longa vida, bem como ao jornal que tão bem dirige, o qual me proporciona algumas horas alegres, criando-me saudades da terra em que fui criado, que, se os cálculos não falharem, visitarei brevemente, depois de 15 anos de ausência. Disponha do amigo às ordens — Vila de João Belo, 29-1-1953.
José Lourenço Farinha».

José Ferreira Lima: De aviso, regressou a Angola, no passado dia 3, este nosso bom amigo, importante e conceituado do agricultor e comerciante naquela província, a quem desejamos a melhor saúde e todas as felicidades que merece. Sabemos que dois dias depois chegara a Luanda de excelente disposição, o que sinceramente nos apraz noticiar.

FUNCIONALISMO: Foi contratado para o lugar de aspirante estagiário da Secção de Finanças deste concelho o sr. José Luís de Figueiredo Saraiva.


A Comarca da Sertã


 

Através da Comarca

OLEIROS, 4

Os moradores e proprietários das margens direita e esquerda do Rio Zêzere desde Pedrógão a Cambas vivem neste momento debaixo duma inquietação impaciente que lhes tira o sono e lhes arrasará os olhos de lágrimas.

Quem escreve estas linhas em nada é prejudicada com a barragem do Cabril, porque os palmos de terra que possui, quis o destino que fosse quase no cume da Serra de Alvelos. Na qualidade de perito avaliador foi-lhe ordenado há dias por um mandado do tribunal, fez certa determinada avaliação de bens móveis dum inventario orfanológico, e que o inventariado fica próximo do Rio Zêzere; ainda ia longe já visava umas pedras brancas a cal, duma e outra margem so Zêzere, e de todos os seus afluentes, indicando o nível que vai ser ocupado pela água da Barragem do Cabril; o chegar próximo desses sinais de nível, encontrei um velhinho dos seus 70 a 80 anos após os bons dias, perguntei: Então este é o nível que a água vai tomar?…

O homem sem responder, sentou-se, apoiou os cotovelos sobre os joelhos, deixou cair a cabeça sobre as mãos, e notei que soluçando chorava.

Como não conhecia o sítio nem tão pouco as pessoas que ali moravam, perguntei: Pelo que vejo estes terrenos são do sr. Resposta: São sim. E continuou chorando. Então que há-de o sr. fazer, não vê que é uma coisa que toca a todos, os que teem terrenos à beira do Rio, e que todos têm que se conformar, porque esta obra é um engrandecimento para a Nação, que nos mesmos não sabemos avaliar, e como vê eles pagam, e por certo não é por prazer mas sim porque o país seja engrandecido com estas importantes obras, porque o estrangeiro também assim tem feito, e o sr. não tem ouvido dizer que as outras nações são mais ricas que a nossa. E porque?… Porque estas medidas já há muito tempo que lá têm sido tomadas, e deixe-me dizer-lhe que eles pagam e parecem que coisas há que pagam bem. Resposta: Eu tenho quase 80 anos e só há cerca de dez anos que não compro pão, para me sustentar a mim e à minha família, tem sido à custa do meu intenso trabalho isto tudo que o sr. Aqui vê feito, desde que me conheço, cansei-me a trabalhar, e quando julgava ter vencido a vida e deixar alguma coisa à minha família, é precisamente quando me vejo à beira da miséria… Calcule que os srs. engenheiros, há dias, me informaram que eu só recebo pelas minhas casas, oliveiras, hortas, terras de cultivo e todas as minhas outras árvores, quarenta contos… Com esse dinheiro diga-me… o sr. onde é que eu posso formar de novo a minha vida, o meu lar e de minha família, sem saber por onde deva caminhar, ficando sem propriedades e sem dinheiro, já fui dar algumas voltas e não consigo nem com duas vezes mais; nada que se pareça com o que aqui tenho, e nesta região é raro haver quem venda propriedades, assim vejo-me impossibilitado de voltar a ter casa de meu, porque com os quarenta contos, ou se arranja o caso ou compro um pedaço de terra. E será no fim da minha vida que eu volto ao princípio?…

… Mas nesse tempo tinha eu forças; e agora os terrenos estão mais aproveitados do que nesse tempo. Disse-lhe eu. o sr. o que precisa é ter calma e conformar-se, porque isto não foi com o fim de prejudicar o sr. Nem ninguém. Conformar-me?… Não me conformo de modo algum vou deixar-me levar para tribunal, porque quero ver ser a justiça me dá razão. Apontavam umas linhas e fronaosas oliveiras?…diz: O sr. vê aquelas oliveiras?… Sabe quanto elas costumam dar no ano de safra?… Entre sete e oito carradas de azeitona, que o dono sr. José Cristóvão, da Corga, aqui vem buscar, e nos anos de contra-safra, entre três a quatro carradas, isto sei eu porque também as ajudo a apanhar, veja bem, devem ser umas cento e cincoenta oliveiras, esta horta, com esta rica nascente e todas estas arvores, sabe quanto lhe querem dar?… doze contos; veja o sr.º que ainda o outro ano aqui teve nestas oliveiras cerca de setenta alqueires de azeite.

Disse-lhe eu: como vê, o sr. ainda está em vista de ficar em melhores condições que esse sr. Dono destas oliveiras e restante propriedade. Olhe meu amigo o remedio é conformar-se. Eu conformar-me…Nunca. Nós estamos todos à espera de ver como o sr. José Cristovão, da Corga, resolve porque já nos disseram que deixa ir para tribunal, e como ele é homem de dinheiro por certo não aceite aquilo que lhe oferecem e depois de ver como ele faz também lhe seguimos as passadas.

Como as horas me mandavam despedi-me do velhote e segui o meu caminho, mediante na pobre situação dalguns chefes de família que ali governavam a sua vida embora pobremente, mas que viviam satisfeitos.- C.

 

NO IMPÉRIO

“O Comissário de Polícia”

Mais um filme português, o primeiro filme de 1953, o primeiro a exibir-se na confortável sala de espectáculos do cinema Império, e o primeiro realizado por Constantino Esteves.

O argumento é extraído da graciosa comédia de Gervásio Lobato que diga-se a verdade, não sai beneficiada desta adaptação cinematográfica. A peça é genuinamente teatral e, mais do que isso, caracterizadamente local. As cousas passam-se em Lisboa de 1.900e, de tal maneira, que só os alfacinhas a poderão seguir sem lacunas, habituados a costumes que ainda têm fervorosos praticantes. E, portanto, como dissemos acima uma comedia marcamente local, melhor entendida na capital do que na província, sem interesse nenhum além fronteiras. Vistas assim as coisas, pode dizer-se de «O Comissário da Política» que é um filme de agrado certo, sem pretensões, emparceirando ao lado de quase todos os filmes portugueses, para serem vistos simplesmente por portugueses.

Lia-se no programa que a sua única pretensão era «fazer rir com vontade» e devemos afirmar que esse desejo concretizou-se. A atestá-lo, as gargalhadas estrepitosas que ecoaram toda a noite na moderna sala.

O público riu, como nós rimos, muitas vezes pelo comico dos diálogos, outras pelo disparatado das situações, outras ainda mercê das qualidades dos intérpretes, dos melhores que em tal capitulo conta a cena portuguesa, quer no teatro, quer no cinema.

O filme conta quase exclusivamente com «interiores» e os «exteriores» de que tanto partido se poderia extrair, ficaram reduzidos ao minino, com duas ou três imagens de segundoas, no mesmo trem puxado a cavalos, com os mesmos cavalos, passando pela mesma rua. Culpa de quem?… Não é, de certeza, do realizador. Nota-se-lhe a vontade de ir mais além. Não teve recursos técnicos. Não temos ainda recursos para esse fim nos nossos estúdios cinematográficos. Mas, assim mesmo, certos pormenores – o carteiro, por exemplo – foram apanhados a capricho. Tudo apontado, somado e descontado, temos um filme português que logrou o objectivo dos que lhe meteram mãos. O público riu, vai rir, sem constrangimento, com vontade.

Não queremos deixar de louvar encarecidamente a sequência musical de Fernando de Carvalho, que denotou raro sentido cinematográfico.

Dos interpretes, os melhores são António Silva, grande em qualquer parte e em qualquer papel, Cremilda de Oliveira, com temperamento para o lugar difícil que lhe coube e Elvira Velez, uma «D. Vicência» cheia de vivacidade e naturalidade.

Os outros, todos cumpriram, com um «muito bom» para Igrejas Caeiro, notável em algumas intervenções, e um «sofrível» para Júlia Barroso, sem voz nem temperamento para o papel.

Cá ficamos à espera de novo cometimento de Constantino Esteves.

O seu primeiro filme revela indesmentíveis qualidades.

Produção e distribuição da «Doperfilme».

Sob o aspecto moral é filme que pode ser visto por todos. Os complementos são interessantes e variados.

(De «Novidades»)

  1. C.

Umas pílulas de humorismo

Certo dia, o automóvel de Rockefeller teve uma panne; o popular milionário viu-se por isso obrigado a tomar um táxi. Chegado ao seu destino, deu cinquenta cêntimos de gorjeta ao motorista. Este, fazendo uma careta, ripostou mal humorado:

— Ainda ontem fiz um serviço semelhante a sua filha e ela deu-me três dólares!

— Não admira… respondeu o homem dos milhões. — É que minha filha tem um pai rico, eu não.

 

Um biógrafo de Abraão Lincoln conta que uma alta individualidade surpreendeu, certa vez, o presidente dos Estados Unidos a limpar as botas.

— Então o sr. presidente é que engraxa as suas botas? perguntou admirado.

— É verdade… repondeu Lincoln, fitando o interpelante. — E o sr. engraxa as de quem?

Calino entrou num café que costumava ser muito concorrido. Não vendo onde se sentar, voltou-se para o dono do café e berrou indignado:

— Isto é insuportável! Se o seu café continua a ser tão concorrido, acabará por não vir ninguém!

Distrai-se,

lendo a Colecção «O Vampiro», verdadeiramente sensacional.
— Papelaria da Gráfica Celinda, L.da. — Sertã.

NECROLOGIA

  1. Artur Mendes de Moura

Após prolongada e doloroso sofrimento, suportado com a maior resignação cristã, faleceu, com 70 anos de idade, em S.to António do Marmeleiro, o rev.º P. Artur Mendes de Moura. Era natural da freguesia do Peso (Vila de Rei), onde nascera no dia 17 de Maio de 1882.

Frequentou o Colégio das Missões em Cernache do Bonjardim e o Seminário de Portalegre, onde cursou filosofia e teologia. Ordenado de Presbitero no fim de 1905, é logo colado na freguesia de S.to Antonio do Marmeleiro, de que tomo posse no dia 1 de Janeiro de 1906; a esta freguesia fica ligado por tão profundos laços de amizade que ali quer terminar a sua vida terrena. Por três vezes exerceu a paroquialidade nesta freguesia num total de 16 anos. Mas a sua vida gastou-a no ensino que, com pequenos intervalos, exerceu, desde 1915 a 1950, no Colégio Liceu Português de Figueira da Foz, no Colégio de Santarém, nos Seminários de Mação e Gavião, no inicio destes. Daqui transitou para o Colégio das Missões, em Cucujães, onde também foi ecónomo, e Colégio das Missões, em Cernache do Bonjardim: quando neste último foi fundada a S.P.M.C.U., com outros fundou na mesma localidade o Colégio «Vaz Serra», do qual foi Director durante 12 anos. Em 1950, para descançar e «para melhor cuidar da sua alma porque o fim da sua vida se aproximava», como tantas vezes dizia, retirou-se para a freguesia de S.to António do Marmeleiro. Aqui exalou o último suspiro no meio da maior calma, no dia 28 de Janeiro.

Tendo-se dedicado sempre ao estudo, deixou alguns apontamentos particulares de valor referentes à Matemática.

Ao seu funeral acorreram os seus amigos do Peso, Sertã e Cernache além da quase totalidade dos habitantes da freguesia de S.to António do Marmeleiro; uma representação de alunos do actual Instituto Vaz Serra, sucessor do antigo Colégio «Vaz Serra»; representações da A.C. da Sertã e da freguesia e aquase totalidade do clero do Arciprestado, num total de 16 sacerdotes, entre os quais se contavam a representante do Seminário do Gavião e o rev.º Reitor do Seminário de Cernache.

Na pessoa do rev.º P. Moura perdem os habitantes de S.to António do Marmeleiro um grande amigo e os pobres um grande benemérito. No seu testamento foram contemplados além de seus sobrinhos os pobres e as igrejas das freguesias da naturalidade e do falecimento, assim como o Seminário Diocesano.

Era tio dos srs. Anibal Alves de Moura, empregado industrial em Castelo Branco; Artur Alves de Moura, chefe de Repartição de Finanças em Sabugal; D. Arminda Alves de Moura Ribeiro, casada em Unhais da Serra; D.Ilda de Moura Ribeiro, professora oficial em Alhandra; D. Lídia de Moura Alexandre, casada em Paúl; Artur de Oliveira Moura, residente em Durban – Africa do Sul; e D. Ilda de Oliveira Moura, casada em Sesmarias – peso; a todos renovamos as nossas condolências. Aos leitores pedimos uma oração pelo eterno descanso da sua alma.(E).